Avós reconhecidos como pais socioafetivos em relação afetiva com neto

Sobre o doutor Evandro

Evandro Júnior, advogado (OAB/SP 407.083), lidera o escritório com foco em atuação estratégica nas áreas de Direito Criminal, Previdenciário e de Família. Com base em São Paulo e região, oferece soluções jurídicas objetivas, atendimento humanizado e comunicação transparente — para que cada cliente se sinta seguro, ouvido e bem-orientado.

Avós podem ser reconhecidos como pais socioafetivos? Entenda o que diz a Justiça

A formação das famílias mudou ao longo dos anos e o Direito precisou acompanhar essa transformação. Hoje, não é mais possível limitar o conceito de família apenas aos laços biológicos. A Justiça brasileira reconhece que vínculos construídos com base no afeto, no cuidado e na convivência contínua também merecem proteção jurídica. É nesse contexto que surge o reconhecimento dos pais socioafetivos, inclusive quando esse papel é exercido por avós.

Em muitos lares brasileiros, os avós assumem integralmente a criação dos netos. São eles que oferecem abrigo, educação, sustento emocional e orientação diária. Em diversas situações, os pais biológicos estão ausentes, seja por abandono, falecimento ou incapacidade de exercer o poder familiar. Quando essa relação se consolida ao longo do tempo, a Justiça pode reconhecer os avós como pais socioafetivos.

O que são pais socioafetivos

Os pais socioafetivos são aqueles que, mesmo sem vínculo biológico, exercem de fato as funções parentais. O que define essa relação não é o DNA, mas a presença constante, o cuidado diário e a construção de um laço afetivo sólido e duradouro.

A filiação socioafetiva é reconhecida pelo ordenamento jurídico brasileiro com base nos princípios da dignidade da pessoa humana, do melhor interesse da criança e da afetividade como valor jurídico. O Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça já consolidaram o entendimento de que o afeto pode gerar efeitos jurídicos semelhantes aos da filiação biológica.

Avós como pais socioafetivos na prática

O reconhecimento dos avós como pais socioafetivos ocorre quando fica demonstrado que eles assumiram, de forma contínua e pública, o papel de pai ou mãe. Isso inclui:

• criação desde a infância
• responsabilidade pela educação
• sustento financeiro
• tomada de decisões importantes
• reconhecimento social daquela relação

Não se trata de uma situação eventual. O vínculo precisa ser estável, duradouro e reconhecido socialmente. Em outras palavras, todos ao redor precisam enxergar os avós como verdadeiros pais.

Diferença entre filiação socioafetiva e adoção avoenga

É importante esclarecer um ponto essencial. A chamada adoção avoenga é proibida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, justamente para evitar fraudes sucessórias e confusão de vínculos familiares. No entanto, o reconhecimento da filiação socioafetiva não é adoção.

Enquanto a adoção cria um novo vínculo jurídico substituindo o anterior, a filiação socioafetiva reconhece uma realidade já existente. A Justiça não está criando um laço artificial, mas apenas formalizando juridicamente uma relação construída ao longo do tempo.

Por isso, os tribunais entendem que reconhecer avós como pais socioafetivos não viola o ECA, desde que fique comprovado o vínculo afetivo consolidado.

Entendimento da Justiça sobre pais socioafetivos

Diversos tribunais brasileiros já reconheceram a possibilidade de avós serem declarados pais socioafetivos. Um caso recente analisado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais envolveu um homem criado integralmente pelos avós maternos, sem qualquer contato com os pais biológicos.

A decisão reforçou que a filiação socioafetiva não depende de adoção formal. O que importa é a realidade vivida. O tribunal destacou que o vínculo afetivo estava plenamente consolidado, sendo legítimo o reconhecimento jurídico da relação.

O Superior Tribunal de Justiça também possui jurisprudência firme no sentido de que a filiação socioafetiva produz efeitos pessoais e patrimoniais, desde que comprovada.

Quais direitos surgem com o reconhecimento

Quando os avós passam a ser reconhecidos como pais socioafetivos, diversos efeitos jurídicos surgem.

O filho socioafetivo passa a ter direito:

• à inclusão no registro civil
• ao uso do sobrenome familiar
• à herança
• à pensão alimentícia, se houver necessidade
• ao reconhecimento pleno da relação parental

Da mesma forma, também surgem deveres. A relação é recíproca. Assim como pais biológicos, os pais socioafetivos também assumem responsabilidades legais.

Registro civil e sobrenome

Um dos efeitos mais relevantes é a possibilidade de alteração do registro civil. O nome dos avós pode constar como pais no documento oficial, reforçando juridicamente aquilo que já existe na prática.

O uso do sobrenome da família socioafetiva fortalece a identidade do filho e garante segurança jurídica em diversas situações do cotidiano, como matrícula escolar, atendimento médico e questões sucessórias.

Direito à herança

O reconhecimento dos pais socioafetivos também impacta diretamente o direito sucessório. O filho socioafetivo passa a ser considerado herdeiro legítimo, em igualdade de condições com filhos biológicos.

Isso significa que, no falecimento do avô ou da avó reconhecidos como pais, o filho socioafetivo poderá participar da partilha de bens, respeitando as regras do Código Civil.

Pensão alimentícia e dever de cuidado

Outro ponto relevante é a possibilidade de pensão alimentícia. Caso fique comprovada a dependência econômica e a necessidade, a Justiça pode reconhecer o dever alimentar decorrente da filiação socioafetiva.

Esse dever não nasce automaticamente, mas pode ser reconhecido conforme o caso concreto. A lógica é a mesma aplicada aos pais biológicos: quem exerce a função parental também assume responsabilidades.

Como comprovar a filiação socioafetiva

A comprovação da relação é feita por meio de provas. Entre as mais comuns estão:

• documentos escolares
• registros médicos
• testemunhas
• fotos e vídeos
• declarações públicas
• histórico de convivência

A Justiça analisa o conjunto probatório para verificar se houve, de fato, uma relação de pai e filho baseada no afeto e na convivência contínua.

Importância da orientação jurídica

O reconhecimento de pais socioafetivos é uma matéria sensível e exige análise técnica. Cada caso possui particularidades e impactos relevantes, especialmente no campo patrimonial e sucessório.

Por isso, contar com orientação jurídica especializada em Direito de Família é fundamental para conduzir o pedido de forma segura e adequada.

Considerações finais

A possibilidade de avós serem reconhecidos como pais socioafetivos demonstra que o Direito brasileiro evoluiu para proteger relações baseadas no afeto, na responsabilidade e na dignidade humana. Mais do que laços de sangue, o que importa é quem esteve presente, cuidou e assumiu o papel de pai ou mãe ao longo da vida.

A Justiça não cria sentimentos, mas reconhece juridicamente aquilo que já existe na realidade. Quando o vínculo é verdadeiro, estável e público, ele merece proteção legal.